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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Mais uma vez (e aconteceu de novo)

Sim, no trem, lotado.

• Dessa vez, um homem aproximadamente 28 anos, sentado junto de outro de pé, na mesma faixa etária.

• Um dos homens falava como se estivesse cantando, muitas gírias (primeira vez que ouço "o chicote vai estralar"), uma forma de falar demonstrando reação, indelicadeza, incompreensibilidade, ansiedade, agressividade. Enfim, mais um se expressando com violência e intimidação, irônico que eu estava com a música "Tenderness" (delicadeza, em português) na cabeça, música que me traz significados memoráveis.

• O homem sentado estava sentado perto de mim. As pessoas à minha volta ficavam olhando, discretamente, de vez em quando. Era como se houvesse uma amarra, os movimentos mais duros, a esponteneidade mais limitada. Uma moça sentada à minha frente ficou dura, não levantava a cabeça, apenas aquela forma de "espiada", vale notar que um tempo depois que a dupla foi embora, não só ela teve mais movimentos com a cabeça como também se articulou um pouco, assim como um outro rapaz que começou a conversar com uma moça que estava no vagão há um bom tempo.

• O que é interessante: no mesmo vagão, havia um casal com um bebê. Mas o bebê, um verdadeiro cantor, berrava muito alto e eu mesmo me sentia com dor de tanta dor que o bebê conseguia expressar num grito estridente, monotônico, quão alto suas cordas vocais alcançassem. No momento em que isso acontecia, o homem ficava quieto, a conversa cessava. Até se ouvia "a mãe nessas horas que sofre pra aguentar, eu não queria ser ela".

• Daí que eu penso: só há violência enquanto há medo. Violência é uma forma de expressão marcada pela reação, agressividade em relação ao medo percebido/lidado. De que ele está reagindo? O que faz ele se expressar assim e inclusive na medida em que a conversa se desenvolve o tom fica mais alto, mais dinâmico, como se ele se identificasse com o que diz. A neuropsicologia tem isso bem claro, postarei algo relacionado em breve. Pra começar a introdução desse post, o homem nasce bom?

Em breve mais sobre esses episódios hehehehe

domingo, 14 de dezembro de 2008

A Psicologia dá conta?

Em setembro deste ano (2008), peguei um ônibus aqui de Santo André pra voltar pra casa. Depois de passar a catraca e procurar por um lugar para sentar, vi que havia um assento vazio no fundo do ônibus, o que era estranho pois havia algumas pessoas de pé por ali. Na época eu estava lendo bastante Bandura, agilizando uns slides. Conforme eu ia para o fundo do ônibus, deu pra ver que ao lado do assento vago tinha uma mulher que aparentemente falava em direção ao vidro (pra não dizer com o vidro rs). Pois bem, eu já pensei duas vezes antes de me sentar ao lado dela e comecei a reparar que algumas pessoas envolta a olhavam de forma estranha, como se tivessem visto um alienígena. Resolvi ficar de pé. A viagem era curta mesmo.

Ao parar nos outros pontos, algumas pessoas foram entrando no ônibus e numa dessas levas, uma jovem moça, aparentando uns 25 anos sentou-se no tal assento. A mulher que estava lá falando sozinha olhou para esta jovem moça assim que ela se sentou e começou a falar alto elogiando seu cabelo, seu corpo, perguntando o que ela passava e algumas coisas que eu não consegui entender, interessante também que ela olhava de forma profunda nos olhos da moça. A jovem começou a ficar preocupada e suas mãos começaram a tremer um pouco e seus gestos com uma bolsa que ela carregava ficaram mais duros e tensos. Ela permaneceu quieta, com alguns risos pequenos e menos de 1 minuto depois eu desci.

Esse é um tipo de situação estranha, com a qual não estamos acostumados, não faz (tanto) parte do nosso dia-a-dia. O que me deixou encucado: comecei a pensar uma forma de lidar metódicamente com a situação mas era difícil: a imprevisibilidade do comportamento da mulher falando sozinho era algo delicado de se lidar (o acaso é o terror dos racionalistas rs). Que auto-regulação ela tem? Auto-regulação na teoria de Bandura é ativada em ambiente social mas pode ser desativada em caso por exemplo de distorção da consequência do comportamento.

Engraçado que para Bandura, o objetivo último da terapia é o desenvolvimento da auto-regulação, seja por processo de julgamento, auto-observação, auto-reação ou auto-eficácia. MAS, por que a mulher não poderia estar falando sozinha? O que havia de doente nisso? Esse é um tipo de situação que eu não aprendi na faculdade. Com certeza poderia se hipotetizar e identificar ansiedade, QI baixo, uma limitação da flexibilidade da mulher principalmente na relação com o outro em espaço público. Mas quanto mais pensava na falta de "avaliação moral" da mulher, mais me afastava do que era falar sozinha para ela.
Hoje, eu percebo isso de forma mais densa, o comportamento dela está dentro de um contexto, com o histórico dela, com as relações que ela desenvolveu com ela mesma, com os outros, e acima de tudo, há a perspectiva de quem percebe. Os filósofos do século XIX confiavam cegamente que a razão resolveria seus problemas, seja técnicos ou existenciais. Hoje, estamos por outro lado, "o único sentido da vida é que ela não tem sentido".

Participei de uma palestra da Ana Bock e fica claro a crítica à psicologia que não abordou questões desse tipo, limitou-se ao pensamento elitista, de avaliação e separação, conformismo. No primeiro semestre de psicologia, ouço do professor de epistemologia numa aula sobre Nietzsche e pensamento trágico que "o psicólogo é o grande niilista das instituições". Ou então simplesmente tente andar por aí à noite, não há "liberdade de ir e vir", simplesmente há o medo controlando. Nietzsche diz que uma vida vivida com medo não tem sentido, mas estamos numa situação tão opressiva que estamos fazendo dessa limitação existencial um sentido, de tão complicada que é nossa situação. Isso porque não estamos em ditadura, bem longe dela, e temos até filósofos (Marcel Gauchet) discutindo a crise da democracia por causa do excesso de direitos humanos, individuais.

Essas questões mostram que a psicologia está bem longe ainda de onde precisa estar e já mudou muito pra direcionar a esse caminho, que deve ser, fundamentalmente, de utilidade. Não tem nexo as pessoas não saberem o que a psicologia, é de abismar um TV Diversidades que sai às ruas no centro de SP perguntar o que é psicologia.