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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Egocentrismo? Humanos individualistas?

Pra mim, egocentrismo seria considerar o humano como um ser faltante, carente, determinado pelas posses, que só se relaciona porque supostamente adquiriria posse e preencheria essa falta que se não fosse ontológica seria instalada pelos outros, daí então saber quem é feliz e quem não é. Essa concepção toma o ser humano por causa e estaria coerente com a afirmativa "eu TENHO relacionamento", "eu TENHO amor", "eu TENHO sexo". Uma maquina ideológicamente processada e enquadrada.

Eu parto de um princípio existencialista em que cada um faz para si mesmo, ser humano como projeto, transcendental, intencional. "Existência não é a necessidade. Existir, já está aí, simplesmente". Agir de forma individualista está numa dimensão "ôntica", contingencial a existência, relacionada à forma como a pessoa se relaciona com o mundo. Não posso ser eu e ela ao mesmo tempo, não haveria temporalidade e espacialidade que caracterizam a existência humana. Da forma como propõe, relacionamento estaria mais para um imperativo categórico, um dever universal, inquestionável sem qualquer distinção de conteúdo.

Relacionamento amoroso nem pela ética helenística (prazer) seria coerente considerá-lo uma vontade ou necessidade indispensável.

Este texto também no orkut.

sábado, 5 de setembro de 2009

O que se busca num relacionamento?

Primeiro vc precisa definir a que tipo de relacionamento você está se referindo, amoroso, conjugal, familiar, animal.

A que pessoas você está se referindo, mulher, homem, adulto, criança, idoso.

Depois que tipo de orientação, sociedade, disposição socioeconomica e etc.

Como você já definiu "pessoas", é suficiente para demonstrar que estamos falando de interação, existência. Logo, definições evolucionistas como R sexo masculino (fecundação maior n de fêmeas) e r sexo feminino (cuidadora) não são suficientes para nos definir pois não é necessária a fecundação "in natura" para gerarmos um novo ser da nossa espécie. O que poderia se dizer é que somos autopoiéticos, recriamos a nós mesmos. Discute-se inclusive o quanto o homem é necessário em relação a isso. Por enquanto temos com certeza a biologia ao nosso lado pois é prazeroso para nós e todos os outros animais o acasalamento. Mas mais uma vez, com a capacidade superior humana de imaginação/racionalização, procuramos meios desse significado biológico ir por àgua baixo uma vez que o prazer está mais direcionado às maquinas que nós mesmos criamos do que ao sexo "em si".

Se você pretende buscar o relacionamento pelo prisma "universal", algo que seja comum para todos os povos independentemente das condições mencionadas acima, então você entra num campo mais comum da filosofia, que é o pensamento do todo, e provavelmente vai desembocar num conceito de ontologia humana embasado na filosofia voluntarista ou na filosofia existencialista que são as reações à metafísica e aos modos de conceber o humano ao longo do pensamento ocidental.

Para a psicologia, o que pode ter conexão direta de pesquisa são as formas de conceber esse relacionamento considerando todas as suas dimensões, por meio dos comportamentos e significados atribuídos ao longo da relação ou apenas pelos comportamentos num prisma anti-mentalista. Ou seja, nossa preocupação não seria tanto de procurar desvelar todos os fundamentos universais humanos mas como a potencialidade desses fundamentos se dá (já que eu sou abertura, o que é este outro para mim? - Dulce Critelli) nos relacionamentos que ela estabelece ao longo da vida. Vale lembrar por exemplo que isso envolve a concepção de coerência, ou seja, a pessoa manter comportamentos similares com pessoas e locais diferentes, ou então a criatividade, capacidade de inovar e flexibilizar sua conduta, chamado rapport erikssoniano.

Algo que eu li recentemente e tem fundamento na filosofia nietzschiana é o pensamento do corpo pelo corpo mesmo, ou seja, o que o corpo sente é o que queremos e o que estimulará nossa vontade de poder. Isso me faz pensar nas limitações que estabelecemos no relacionamento e na nossa vida como um todo e essa concepção é corrente em diversas teorias e práticas atuais na psicologia, principalmente nas que estudam a questão da liberdade e a ausência de causas para o existir humano.

Como vc pode ver, o caminho que pauta seu "o que" no relacionamento para uma relação de causa encontra lacunas e pouca autenticidade, uma vez que limita e desconsidera a capacidade intencional humana, como por exemplo na expressão da arte (fundamento humano para Nietzsche).

Com essa base, a minha resposta tem mais sentido: o que se busca do outro é existência. Eu ainda não tenho um embasamento sintético dessa resposta, mas é basicamente conceber o relacionamento não como causa (eu tenho relacionamento para ter isso e aquilo) mas como consequência/contingência (eu SOU relacionamento). Tudo o que eu faço é relacionamento. Um relacionamento de uma forma específica não pode ser determinado como necessidade, mas como mais uma possibilidade, em coerência ao conceito de factiticidade, humano como jogado na natureza e contingência sartriana. Mesmo que algo não exista ou que seja um evento não compartilhado eu me relaciono. Independentemente se estou num relacionamento amoroso, eu já estou me relacionando. Daí que as perguntas iniciais começam a ter um sentido mais nítido. Pois aí sim eu passo a considerar o relacionamento amoroso não como um fim, necessidade, preenchimento de falta, dever, mas como possibilidade e diversidade de com quem, quando, como, onde, por que, pra que. Aqui se revelam todas as barreiras teóricas e ideológicas que nós podemos ter.

domingo, 30 de agosto de 2009

A virtualidade das relações interpessoais atuais

"...Herdeiros são agora
Da virtude que perdemos...
Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro..." Renato Russo

Ao mesmo tempo que a tecnologia proporcionou novas formas de se relacionar (como por exemplo um jovem com deficiência, sem poder andar e falar ser um dançarino requisitado no Second Life), ela também não limitou velhas formas de se relacionar? Dificilmente se tem brincadeiras "físicas", simples como pega-pega e esconde-esconde (aliás, isso é sexual...tomar cuidado e ensinar métodos contraceptivos, "já com pouco idade estão dando"...).

Não se pode abordar o assunto criticando o que a tecnologia nos trouxe, que é muito bom obrigado e estamos utilizando agora, mas o que ela nos tirou ou que no mínimo nos limitou a percepção (ou então nos faz emocionar ao ver recordações de brincadeiras, alimentos e programas no rádio ou na tv da infância).

Pensando de uma forma básica, quanto você costuma tocar uma pessoa ao longo do dia? Quanto você se toca ao longo do dia? Quanto você usa o seu corpo que não seja ficar sentado na frente do computador ou de pé num coletivo para se locomover a um local onde você possa ficar novamente sentado na frente do computador?

Essas perguntas acho que fariam mais sentido se fossem: Quanto você costuma tocar no "mouse" ao longo dia? Quanto você tocou no seu celular ao longo do dia? Nossos instrumentos tecnológicos, já nossos, MEU, são tão nossos que nós tocamos mais nele do que em nós mesmos ou em quem gostamos. É como se já nascessemos com o celular acoplado. Daí vem consequências danosas e ideológicas, como nascermos consumidores, competindo, quantos espermatozóides não lutaram para apenas um ser você? Você não tem celular ainda? De que planeta você veio?

Agora, com a tecnologia, a ilusão de relacionamento é mais forte do que nunca. Temos prazer em conseguir não mais em abraçar, em beijar, em conversar e paquerar, mas em ver compilação de todas as formas possíveis de sexo. Conhecemos bem uma atriz pornô mas temos dificuldade em falar sobre nossa colega de sala há uns 3 anos.

Essa síndrome de modernidade reflete bem nos anúncios de lojas de manutenção: "Evite solidão, consertamos seu playstation". O segredo atual está na virtualidade. É ela que está delineando nossa subjetividade e fazendo repensar os processos, até os programas de televisão estão utilizando da virtualidade para ter mais interação. Não que você interaja, como um exercício no teatro do oprimido, mas escrever um texto do celular significa que você existe. Você não é ninguém. Você agora tem nickname e mais, seguidores que você não faz a mínima ideia quem sejam.

Sempre que eu vejo músicas ou compilações dos anos 80 no YouTube, ou então slides em correntes por email, eu leio comentários saudosistas, pessoas realmente querendo voltar no tempo e vivë-lo novamente, pior, dizendo o quão ruim está atualmente, não apenas culturalmente mas no cotidiano, como andar nas ruas, o noticiário, a moradia e a sensação de segurança.

Fica então a dúvida: será que chegaremos num ponto em que seremos tão "virtualizados" que não mais nos preocuparemos se estamos tocando fisicamente mas o quanto estamos tocando subjetivamente uma pessoa? será que descobriremos que a balança está pesando mais de um lado que do outro e precisamos reavaliar o que temos por relacionamento e corporeidade?