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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Solidão: evolução intrapessoal?

Pergunta: A solidão é consequência da evolução intrapessoal?

Pra qualquer teoria na Psicologia atual que você estudar, mesmo as mais deterministas, evoluir jamais será "estar só", ou que a solidão seja o resultado de uma evolução. 
O bebê começa se relacionando com a mãe. À medida que ele adquiri mais habilidades e uma melhor percepção de mundo, sua rede de relacionamentos e as formas de agir especificamente para cada vínculo aumentam. 

Trago o exemplo de um sonho que o Medard Boss analisou e publicou num dos seus artigos e reflete o que estou dizendo. Um jovem rapaz que estava em terapia sonhou que viu de longe umas figuras que se assemelhavam a humanos. Ele pegou um binóculo e viu que se tratavam de algumas jovens mulheres. Com a evolução da terapia e próximo do seu término, ele sonhou novamente e conseguiu não apenas ver as mulheres sem precisar do binóculo como pôde conversar com elas. 
Seria uma evolução o rapaz avistar a vida inteira as mulheres de binóculo? Se a sua terapia não for para formar padres, há uma grande chance de fracasso e piora do quadro do paciente.



sábado, 5 de junho de 2010

Comentário sobre reportagem "Cabeça de homem"


Branco, alto, magro, sem calvice, com carro e imóvel, sorriso claro sem falhas, estabilizado financeiramente, com/concluindo superior.
"Pequena amostra" seletíssima...
A "mulher ideal" deles é simplesmente uma mulher inteligente e simpática, provavelmente com formação superior, que saiba agradar em casa e ao sair para comer/beber/dançar, sem ciúmes e com projeto para vida profissional.
Se considerarmos que a escolaridade média das mulheres é mais alta que a dos homens, que elas estão conquistando grande espaço/qualificação no mercado de trabalho, que dança lhes é algo incentivado culturalmente, que é difícil uma mulher gostar de ficar plantada em casa, o "ideal" que sobra é "não quero casar mas me dedico a você". bah...





sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Comunicação entre homens e mulheres

Na teoria da comunicação, temos um axioma (cinco ao todo) que estabelece que toda comunicação tem aspectos referenciais (ou do conteúdo) e conativos (motivação/empenho/vontade/desejo), sendo que os conativos definem os referenciais. OU SEJA, a forma como se enuncia/interpreta a mensagem pode trazer outros significados. ASSIM, um conteúdo que nós homens entendemos como inútil e "fugaz" no caso das palavras singelas de uma mulher podem ter outro significado completamente diferente, de alta intensidade e utilidade para ela. Essa distinção de gênero não é regra, ainda que reforçada socialmente.

Cabe ressaltar que todos nós, não apenas fala, mas usa do chamado "não-verbal". Desde a forma de se vestir ao movimentar dos dedos e do corpo como um todo podem trazer vários significados.

Então, o que o senso comum tem por "Querer dizer uma coisa e fazer outra", "gostar e se fazer de difícil", "não tolerar erros iniciais", "ser ritualista e complexa", e assim por diante podem ser analisados sob esse enfoque de que todos são uma forma de comunicação (outro axioma, é impossível não comunicar), estão dentro de um contexto e antes de observar essas ações pela prisma da vantagem ("o que ganham"), do narcisismo ("o que querem"), da rigidez ("nunca toleram nada"), da sinuosidade ("outra coisa totalmente diferente") procurar perceber que nós (do ponto de vista masculino) temos parte nessa comunicação e nesse contexto, nós interagimos, a forma como nós damos continuidade/lidamos interfere nessa comunicação e no desenrolar do contato (outros 2 axiomas, a influência da pontuação na conversa e o intercâmbio de simetria ou oposição)

Nós também poderíamos analisar essas ações sob outras óticas, seja pelas competências interpessoais ou então por princípios "maquiavelianicos", mas eu acho essa muito mais positiva e engrandecedora, além de não precisar chegar aos excessos sexistas que abrem margem para várias intepretações e incoerências.



sábado, 6 de dezembro de 2008

O que é o outro?

Existência é liberdade. Nada nos determina. Por mais que se pense em sociedade, causas biológicas, psíquicas ou sociais, o ser humano é enquanto se realiza, enquanto escolhe. Ele é um conjunto de realizações. Eu não sou um receptor de neurotransmissor no meu cérebro, antes mesmo de saber que no meu olho possuo estruturas que captam a intensidade de luz, os cones, e a qualidade das cores, os bastonetes, eu vejo, eu percebo a cor, ela me traz significado. Não são meus neurotransmissores que decidem se hoje vou sair de blusa ou de sunga, é na minha relação com o mundo que decido, que escolho, tenho liberdade para ir de sunga onde quiser, tanto a responsabilidade pela escolha como a responsabilidade pela consequência são totalmente minhas.

Nossa condição original é o estar só, é a solidão e se mantém assim pela vida inteira. É EU quem faz ser para mim. Ninguém vive pelo outro, a experiência é individual, única. Isso não quer dizer que ela não possamos partilhar vivências, não quer dizer que ela não possa se assemelhar e encontrar coerência, como quando sentimos o que outro sente, ou tentamos compreender empaticamente o que é, o que pode ser isso que o outro expressa. Ainda que não tenhamos capacidade de fazer o outro rir ou que nossa tentativa não se concretize, há a possibilidade de fazê-lo rir.

Não podemos determinar alguém. Ninguém nasce casado. Ninguém nasce com uma namorada pré-determinada. Isso só acontece na relação com o mundo e tem-se a escolha de ter a namorada ou não tê-la. Mas, é vital a noção de que se pode ter ou não ter um relacionamento adulto de vínculo forte, a escolha cabe ao indivíduo, por mais que se queira delimitar o relacionamento, pareando com estatísticas de que sem relacionamento próximo há grande probabilidade de desenvolver psicopatologia, ainda assim, é a escolha do indivíduo, tanto para a escolha pela solitude como para o desenvolvimento da patologia, como sentir-se só, abandonado, desconsiderado. Encarar o outro como falta é, como Heidegger trabalha, um ser-com deficiente, mas, fica a pergunta, falta do quê? O que é esse outro que determina as patologias para a psicologia social cognitiva e a motivação de necessidade de pertencer? O que é esse outro que como Merleau-Ponty mostra em Fenomenologia da Percepção, é transformado em objeto para minha consciência e um objeto para a consciência do outro, atachado a nós antes da objetivação científica? Em que, se Sartre mostra-o como mal, enquanto me restringe, e como bem, enquanto me possibilita? Ou como Buber afirma, só há o Eu na relação com o Tu? Esse outro é o que, afinal? Um campo de possibilidades? Sim. Ironizar eternamente para uma maiêutica nos renderia um perguntar infinito, mais denso e sem direção, em que se aglomeram várias perguntas e se depositam esperanças sobrespostas. O outro é possibilidade, ele me permite fazer, ele me permite ser, mas ele não é Eu, eu não sou ele, ele me permite partilha, ele me permite troca, mas ele não me delimita, ele me permite conhecer o que eu desconheço em mim mesmo, mas ele não me determinará enquanto existência, minha essência é definida posteriormente, por mais que eu me sinta bem com a síntese do relacionamento e haverá síntese por mais tênue e humilde que seja, ele não será o estabelecimento em mim como abertura ao mundo, ele é, exatamente, o produto dessa abertura, ao me projetar ao mundo. Como delineia Merleau-Ponty, percepção não é um ato deliberado ou uma ciência de mundo. Nem eu escolho perceber, nem eu escolho a precisão do meu perceber, regulando um botão no meu cérebro. O outro é a minha conseqüência, o meu possibilitador no mundo, mas não é meu determinante, nem minha necessidade, nem meu fundamento ou razão de existir. Eu existo independentemente do outro e estarei condenado eternamente a existir, ainda que o outro não me esteja preenchendo com um não sei o que de possibilidade, ou podendo me olhar com um anel no dedo e o sentindo-o no meu mundo privado.

Relacionamentos Amorosos

Pergunta de um colega:
"Como equilibrar relacionamento amorosos monótonos, sem sentimento? Como trazer o gosto, o sentimento novamente? A resposta poderia ser simplemente mudar, transformar, renovar, recomeçar, mas como?"

O gosto e o sentimento já estão lá, tanto que ficar sem esse contato faz falta, aliás, até o contato sem intimidade pode trazer solidão ou falta de conexão emocional/afetiva, então, o outro e o que ele proporciona não são garantia da minha felicidade pois envolvem a forma como eu e ele reagimos e lidamos dentro de um relacionamento, isso envolve alter e auto-conhecimento, daqui que se pode pensar em equilíbrio e harmonia. A questão aqui é saber o que se quer do outro, o que se busca, saber o por quê de se estar junto desse outrem, essas perguntas encaminham para outras e sempre estarão ligadas com as iniciais.

Muitos estímulos e situações do dia-a-dia podem atrapalhar o relacionamento, ou seja, não é "culpa" da "falta" de sentimento, mas o estresse mesmo que atrapalha na forma de lidar com o outro, principalmente se afeta nosso humor. Nesse tipo de situação, o melhor é e sempre será o diálogo, pois é dele mesmo que se saberá se é preciso mais ou menos contato, inclusive de solitude, o "tempo". Fomentar o bem-estar do outro, como bom indexador na psicologia social, está atrelada nesse diálogo, eu não tenho como saber o que o outro quer de mim sem me comunicar com ele e vice-versa.

Outra questão é essa necessidade de "relacionamento 100%", estamos sempre insatisfeitos (afetiva e materialmente), somos verdadeiras máquinas de consumo, mais famintas e ferozes, invariavelmente, o relacionamento é indissociável dessa condição e passa por fases de incertezas, dúvidas, remanejamento e é excelente que se tenha tal situação, pois a conseqüência, se a questão é adequadamente abordada e trabalhada, é de fortalecimento do relacionamento. Portanto, não há relacionamento sem engajamento, é preciso responder às necessidades, elicitar as próprias e distinguir sua eficácia, tudo isso envolve cuidado de um para com o outro.



Reflexão de uma colega:
"Rotina só existe para quem não ama.
Quando existe amor,paixão e desejo não existe rotina que consiga acabar com um relacionamento."


Infelizmente, discordo. Há uma influência hormonal enorme nas nossas ações quando estamos apaixonados, e muita da nossa energia é direcionada ao outro, mudando nossa forma de experienciar o momento, até pela nossa tendência atualizante, já que muitas das nossas capacidades são desenvolvidas e ajustadas na presença do outro, tanto que estar com o outro, nessa situação, é muito bom obrigado. Com o tempo, é extremamente comum que o amor, por mais sublime e apaixonante que seja, caia numa espécie de rotina, ou que seja além da conta se considerarmos a auto-estima da pessoa. Vários aspectos da pessoa são descobertos e "acostumados", não há surpresas significativas, confrontadas com a velocidade e mutabilidade da "pós-"modernidade.

Penso que você encaminhou seu comentário numa forma interessante: "não há rotina se há desejo", a rotina é uma conseqüência natural, mas há formas de suplantá-la que aí sim, e já remetendo ao título do tópico, podem "esquentar" a rotina. Os exemplos mais fáceis são os mais significativos, todo casal tem costumes, "segredinhos", experiências românticas (não as idealizadas, mas o consumismo realizado e singularizado à experiência em comum) é daqui que encontramos tanto aquilo que pode reesquentar o relacionamento como eliminar os aspectos massantes, reviver essas experiências e destacar seu significado são ações que valorizam o relacionamento e a singularidade que ele adquiriu aos seus participantes.

Utilizo-me de um trecho de Musset que li num livro de Álvares de Azevedo, "Uma lembrança feliz é talvez, sobre terra, mais verdade que a felicidade." ou seja, são as construções do casal ao longo da vivência que fornecem sinais do que está em falta, do que precisa se aprofundar, do que deve ser eliminado.


Essa discussão pode ser lida na íntegra:
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=46802&tid=2595128244414627893&na=1&nst=1

Reflexão sobre o sexo

Na "antiguidade", sobreviver era MUITO mais complicado do que é hoje em dia. Várias gêneros de "homo" (erectus, habilis) e outros gêneros, com suas adaptações específicas (neanderthalis, heidelbergensis, bolsei) -mais detalhes assista "Homem das Cavernas", documentário BBC Londres- impiedosamente padeceram, sendo que nós herdamos muita coisa deles, como cérebro grande, andar de pé, polegar opositor, etc, adaptações que facilitam nossa atividade e interferência no meio. Inclusive, na natureza, o tamanho do pênis está vínculado às necessidades/dificuldades de reprodução de cada espécie.
Nessa época antiga (para nossa temporalidade), o homem tinha um papel de fecundar o maior número possível de fêmeas e as fêmeas de cuidar da "cria" (algo que está mudando aos poucos, principalmente do final do século XX para a atualidade). Quer dizer, a sexo não tinha o "status" que tem hoje, visto que a função era a fecundação da fêmea e manutenção da espécie.

Para nós (homo sapiens), e principalmente vínculado ao cérebro de 1500cm³, nossa capacidade de abstração muito elevada, nossa autoconsciência (lógicamente anterior à consciência, noção de que tenho consciência, pré-reflexiva), o sexo atingiu uma característica, um status de tal forma que é utilizado ou para explicar partes de teorias (psicanálise, pulsões sexuais, sublimação) ou manter manipulação (religião), para se delimitar valor (castidade, virgindade, moralidade) ou como fetiche ("esconde-se que não há falo quando se transa com calcinha"), etc.

A questão é: sexo é fundamental ser discutido, quem pretende ser psicólogo tem obrigação/dever de saber e muito bem essa capacidade que o humano tem, e além de tudo, saber o que há ANTES E DEPOIS do sexo, do ato em si, MAS, é impressionante como conseguimos atribuir tal patamar ao sexo sendo que precisamos discutir e filosofar, construir teorias sobre a questão da aproximação, do contato, do relacionamento, do papel do outro na vida, na cognição, etc. Ou seja, sexo é fundamentalmente comunicação além do comportamento verbal (penetração, felação) e o status que se atribui ao sexo também deve ser atribuido à essa aproximação/relacionamento, sexo dentro desse contexto de comunicação.

Isso quer dizer, enquanto pensarmos o sexo isolado de um contexto com os outros comportamentos humanos, não apenas a velha associação religiosa de moralidade, caíremos sempre nessa concepção de biologizar, "patologizar" e/ou endeusar o sexo.

Peculiaridade: o sexo é tão endeusado que depois que já se "perdeu virgindade", que já se fez muito sexo, ele perde a tonalidade de "pressão" que inicialmente tinha, como o que guia uma vida, tanto que, em relacionamentos, é comum que o sexo torne-se mecânico e que se busque outras fontes de prazer, que até então, estavam obscurecidas pelo endeusamento do sexo, ou então, da descoberta de outras características no próprio corpo ou no corpo de outrem.

Sexo, dentro de um contexto, é mínimo, é um detalhe, que, ironicamente, revela vários outros detalhes existentes no relacionamento entre seres humanos. Detalhes esses que devem ser desvelados e aprofundados pelos psicólogos.