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sábado, 19 de setembro de 2009

Determinismo e Homossexualidade

Existem vários determinismos: espiritual, racional, biológico, econômico, psíquico, ambiental, cultural, sistêmico, cognitivo. A interdisciplinaridade desses conceitos é praticamente impossível ou muito difícil pois nenhuma se firmou até agora nem foram pensadas de forma a interagirem. OU SEJA, se a biologia fala que é genético, mostra-se o gene gay e toma-se isso por base. Se for provado que o complexo triádico intrafamiliar é o que "causa gay" daí quem partilha dessa instrução e ontologia fala isso. Se for provado que existem gays por causa das propagandas de cerveja e brinquedos infantis, e assim por diante.

Atualmente pelo menos conseguimos impor leis e dispositivos repressivos que estabelecem a conduta a ser seguida de forma que se almeje universalidade e coerência aos princípios que regem o homem moderno (direitos humanos). ISSO QUER DIZER, há espaço para o gay independentemente de determinismos, ficando a critério das ciências e da filosofia o desenvolvimento desses conceitos.

ASSIM, partindo desses pressupostos e da pergunta "é escolha ou é determinado?", entra-se numa questão que tem fundamento no campo da teoria do conhecimento e sua discussão sobre a ontologia humana. Vale lembrar que é marcada por complexidade e conflituosidade, com consequências no campo da ética e da moralidade, principalmente com o fim das grandes narrativas e a contemporaneidade.

PORTANTO, ainda que se responda essas perguntas, já se estará implicado esse contexto filosófico, e para estudantes de psicologia e profissionais, tornam-se lacunares e até inúteis sem ter consciência desses fundamentos.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Determinismo x Indeterminismo

Existir "livre-arbitrio" ou não é um tema ultrapassado. A única coisa que diferencia os humanos dos outros animais é liberdade, como tal, seu fundamento é o nada. Nada explica o ser humano, não sou um cérebro, não sou um receptor de neurotransmissor, nem sou uma explicação da sociedade ou do meu "psiquismo". Só sou enquanto me faço ser, sou tão-somente um conjunto dos meus atos, engajamentos, escolhas. Liberdade é a característica de nossa consciência. Projetiva, ou seja, se direciona, e transcendental, para o mundo. Não há nada "dentro", tudo o que nós somos (e o que nós sabemos), apenas somos em relação ao mundo. Como ser humano, não somos explicados, somos compreendidos. Não temos uma causa direta, como uma bola que bate na outra e esta se movimenta, tudo que se passa conosco depende de nossa intencionalidade, o significado que atribuimos às coisas.

Isso é basicamente existencialismo sartriano, daseinanalise de Boss e Heidegger e fenomenologia de Merleau-Ponty e Husserl.

Agora, a questão está em "de que forma somos influenciados?" Por mais que uma pessoa controle a outra e que as professoras psicanalistas insistam que o "adolescente não percebe as coisas para o futuro", não há como ter domínio absoluto sobre uma outra pessoa. Podemos influenciar, manipular, iludir, tentar de várias formas, mas a escolha de meramente de existir já é totalmente da própria pessoa. O que se discuti, principalmente na sócio-histórica, é "com $ se dá uma educação para o seu filho, com $$$ se dá outra educação". Ou seja, a iniquidade como fomentadora de restrição na relação que o indivíduo estabelece com o mundo. Enquanto uns se formam e vão viajar para países da Europa, outros nem se formam para carpir mato com os pais.

Psicanálise é determismo total pelo inconsciente, "determinismo psíquico", essa foi a forma que Freud encontrou para "quebrar" uma ontologia do homem, "ele não é dono de sua própria casa", contra o princípio cartesiano de racionalidade, razão como iluminadora e faculdade humana, engraçado que se saiu de um determinismo para entrar em outro. Agora eu não sou determinado pelo consciente, mas pelo "in"consciente. Boss crítica muito essa idéia, principalmente em análise de sonhos, não sabe/comprova o inconsciente, mas ele é utlizado na fabricação dos símbolos, afastando ainda mais o cliente de sua própria experiência e significados atribuídos.

Sobre a sócio-histórica, eu ACHO que ela é determinista, uma vez que somos um produto da sociedade, da cultura em que vivemos. Não sei se podemos pensar em linha meio determinista, apenas uma parte do indivíduo é "livre", a outra é "aprisionada". Poderia se pensar que o indivíduo é o que faz na sua relação com o mundo e a cultura o moldando, reciprocamente. O que eu considero delicado é o uso do marxismo para a construção da teoria, o uso do materialismo dialético, explicando as "funções psicológicas superiorores" pela história e pela cultura do indivíduo, iso superar então os dualismos mentalistas e naturalista. Assim, eu sou a cultura onde estou inserido e o que modifico nessa cultura se reflete em mim e no próximo, as minhas relações com outras pessoas me determinam, conforme vou "interiorizando".

Albert Bandura, linha social cognitiva, derivada do cognitivismo, pensa em "determinismo triádico", somos uma relação entre o que pensamos, nosso comportamento e o ambiente. Cada um influencia o outro bidirecionalmente. 'Revelando' então o papel da cognição no nosso comportamento, inicialmente na aprendizagem.

A teoria sistêmica, a autopoiese principalmente, tem uma abordagem interessante, somos conjunto de relações, dentro de um sistema. Como uma nota, sozinhos temos um significado, em conjunto, temos outro significado, não posso me considerar isolado. o ser humano como um todo, que é um dos fundamentos do conjunto de idéias "humanísticas", o humanismo. Assim, a tal "teia de relações". Uma peça fora do sistema altera o funcionamento das outras, então há um princípio de circulariedade, interdependência.


Até agora, o que me pareceu mais coerente é o indeterminismo sartriano. É uma das poucas que não pensa o ser humano como um eletrodoméstico, não se fala em "processos", "mecanismos", "aparelho", "sistemas", "instâncias". Só sou na minha relação com o mundo, nada determina o indivíduo, somos uma multiplicidade de possibilidades, não há determinismo no humano uma vez que ele é livre, é aberto ao mundo, aceitar qualquer tipo de determinismo é negar existência, é colocar o "ente" no lugar do "nada". Antes de saber que eu tenho bastonetes para captar luz e cones para definir a qualidade das cores, eu simplesmente vejo (não meus olhos vêem), eu não preciso ser científico para saber isso, nem a minha percepção é uma ciência de mundo, não é um ato deliberado, eu não escolho perceber agora e deixar pra perceber um pouco mais depois. Somos imanentemente ligados ao mundo e somente nos conhecemos nesse mundo, meu cérebro não tem nome nem você conversa com meu cérebro, você conversa com o que eu sou, com o que eu me faço ser, com o que eu faço como conjunto de atos. Quem dói sou eu, não meu dente, minha perna. Meu dente não é existência. Eu sou existência, eu sou um projeto direcionado ao mundo.

Este texto pode ser lido na íntegra:

O que é o outro?

Existência é liberdade. Nada nos determina. Por mais que se pense em sociedade, causas biológicas, psíquicas ou sociais, o ser humano é enquanto se realiza, enquanto escolhe. Ele é um conjunto de realizações. Eu não sou um receptor de neurotransmissor no meu cérebro, antes mesmo de saber que no meu olho possuo estruturas que captam a intensidade de luz, os cones, e a qualidade das cores, os bastonetes, eu vejo, eu percebo a cor, ela me traz significado. Não são meus neurotransmissores que decidem se hoje vou sair de blusa ou de sunga, é na minha relação com o mundo que decido, que escolho, tenho liberdade para ir de sunga onde quiser, tanto a responsabilidade pela escolha como a responsabilidade pela consequência são totalmente minhas.

Nossa condição original é o estar só, é a solidão e se mantém assim pela vida inteira. É EU quem faz ser para mim. Ninguém vive pelo outro, a experiência é individual, única. Isso não quer dizer que ela não possamos partilhar vivências, não quer dizer que ela não possa se assemelhar e encontrar coerência, como quando sentimos o que outro sente, ou tentamos compreender empaticamente o que é, o que pode ser isso que o outro expressa. Ainda que não tenhamos capacidade de fazer o outro rir ou que nossa tentativa não se concretize, há a possibilidade de fazê-lo rir.

Não podemos determinar alguém. Ninguém nasce casado. Ninguém nasce com uma namorada pré-determinada. Isso só acontece na relação com o mundo e tem-se a escolha de ter a namorada ou não tê-la. Mas, é vital a noção de que se pode ter ou não ter um relacionamento adulto de vínculo forte, a escolha cabe ao indivíduo, por mais que se queira delimitar o relacionamento, pareando com estatísticas de que sem relacionamento próximo há grande probabilidade de desenvolver psicopatologia, ainda assim, é a escolha do indivíduo, tanto para a escolha pela solitude como para o desenvolvimento da patologia, como sentir-se só, abandonado, desconsiderado. Encarar o outro como falta é, como Heidegger trabalha, um ser-com deficiente, mas, fica a pergunta, falta do quê? O que é esse outro que determina as patologias para a psicologia social cognitiva e a motivação de necessidade de pertencer? O que é esse outro que como Merleau-Ponty mostra em Fenomenologia da Percepção, é transformado em objeto para minha consciência e um objeto para a consciência do outro, atachado a nós antes da objetivação científica? Em que, se Sartre mostra-o como mal, enquanto me restringe, e como bem, enquanto me possibilita? Ou como Buber afirma, só há o Eu na relação com o Tu? Esse outro é o que, afinal? Um campo de possibilidades? Sim. Ironizar eternamente para uma maiêutica nos renderia um perguntar infinito, mais denso e sem direção, em que se aglomeram várias perguntas e se depositam esperanças sobrespostas. O outro é possibilidade, ele me permite fazer, ele me permite ser, mas ele não é Eu, eu não sou ele, ele me permite partilha, ele me permite troca, mas ele não me delimita, ele me permite conhecer o que eu desconheço em mim mesmo, mas ele não me determinará enquanto existência, minha essência é definida posteriormente, por mais que eu me sinta bem com a síntese do relacionamento e haverá síntese por mais tênue e humilde que seja, ele não será o estabelecimento em mim como abertura ao mundo, ele é, exatamente, o produto dessa abertura, ao me projetar ao mundo. Como delineia Merleau-Ponty, percepção não é um ato deliberado ou uma ciência de mundo. Nem eu escolho perceber, nem eu escolho a precisão do meu perceber, regulando um botão no meu cérebro. O outro é a minha conseqüência, o meu possibilitador no mundo, mas não é meu determinante, nem minha necessidade, nem meu fundamento ou razão de existir. Eu existo independentemente do outro e estarei condenado eternamente a existir, ainda que o outro não me esteja preenchendo com um não sei o que de possibilidade, ou podendo me olhar com um anel no dedo e o sentindo-o no meu mundo privado.